Os eventos climáticos extremos, causados pelo aquecimento global, são uma realidade que comprova a interferência negativa da ação humana na natureza ao longo de décadas. O aumento da frequência e da intensidade dos desastres ambientais tornou-se uma preocupação constante e vital, em razão dos impactos sociais e econômicos de grande magnitude, que afetam todas as partes do mundo.
No Brasil, os efeitos da emergência climática atingem todas as regiões, com o aumento da temperatura média, ocorrência de secas prolongadas, grandes incêndios florestais em diferentes biomas e chuvas cada vez mais intensas, que resultam em enchentes e deslizamentos de terra.
As chuvas intensas saturam o solo e podem desencadear deslizamentos em encostas, especialmente em locais onde a vegetação natural foi removida para dar lugar a construções. Em geral, ocupações urbanas em áreas montanhosas, em encostas e margens de rios ou córregos convivem com o risco de deslizamentos e enchentes. Este fenômeno afeta, sobretudo, as populações mais vulneráveis, que vivem em moradias precárias, destituídas de infraestrutura para absorver tais impactos.
As ocupações de áreas de risco são, em grande parte, desdobramentos do crescimento urbano desordenado. A falta de planejamento, de regulamentação de uso do solo e de infraestrutura adequada contribuem para a formação de um cenário de grande vulnerabilidade das populações que, por falta de alternativas, habitam essas áreas.
O investimento em políticas públicas e planejamento urbano pode ajudar a reduzir a ocupação de áreas de risco e a mitigar os efeitos mais desastrosos das mudanças climáticas.
As recentes tragédias ocorridas no Brasil revelam a insuficiência de políticas preventivas e de infraestrutura capazes de mitigar os efeitos perversos de eventos climáticos extremos. O cenário atual reforça a urgência de uma política habitacional que contemple o planejamento urbano e a adaptação das áreas de moradia aos desafios impostos pela emergência climática.
Para termos cidades mais inclusivas e saudáveis, é preciso produzir moradias em regiões estruturadas e seguras. No radar das políticas urbanas e habitacionais está presente a necessidade de adotar práticas inovadoras, tecnologias e soluções baseadas na natureza, para garantir a segurança de assentamentos urbanos, desenvolver instrumentos para os contextos de crise e mitigar os impactos das mudanças climáticas.
As soluções urbanísticas implicam o refinamento dos planos de drenagem, a ampliação da quantidade de áreas permeáveis, a conservação e a implantação de áreas verdes, a recuperação de ecossistemas, como mangues e florestas, ou seja, políticas públicas que ajudem a controlar enchentes, absorver carbono e reduzir a poluição atmosférica.
Neste cenário é importante destacar o papel da gestão social na execução das políticas públicas de desenvolvimento urbano e habitação. Além de atender emergências e deslocamentos compulsórios em razão de desastres, o trabalho técnico social também promove a conscientização das comunidades sobre causas e efeitos das mudanças climáticas.
O trabalho social abre oportunidades para implementar processos participativos de educação ambiental, ampliar o conhecimento local e a experiência das comunidades em lidar com os eventos climáticos adversos. As atividades socioeducativas voltadas à educação ambiental, sanitária e patrimonial abordam um amplo leque de temas em rodas de conversas e oficinas com a população sobre manejo de resíduos sólidos, descarte correto do lixo, coleta seletiva e reciclagem; uso racional de água, energia elétrica e gás; preservação e conservação ambiental; noções sobre saúde individual e coletiva; prevenção de doenças; plantio de mudas de árvores e hortas urbanas, entre outros, colaborando com a criação de uma cultura de cuidado do espaço habitado e do clima.
O conceito de moradia digna ganha novos contornos no contexto global de emergência climática. Por isso, o trabalho técnico social também enfrenta o desafio de inovar seus instrumentos e métodos para cumprir seu papel de fortalecimento dos mecanismos de proteção social e contribuição à criação de alternativas habitacionais seguras para a população, colaborando com o poder público para a promoção de políticas socioambientais sustentáveis.